Cerimónia Evocativa da Batalha da Praia da Vitória e

Homenagem aos Antigos Combatentes Mortos na Guerra do Ultramar e Cerimónia Evocativa da Batalha da Praia da Vitória

11 de Agosto de 2011 - Praia da Vitória Discurso

 

 

Excelentíssimos Senhores:

•  Presidente da Direção Central da Liga dos Combatentes, General, Joaquim Chito Rodrigues

•  Comandante Operacional dos Açores (COA) - General, Alfredo dos Santos Pereira da Cruz . ,

•  Presidente da Câmara Municipal da Praia da Vitória - Roberto Lúcio Silva Pereira Monteiro representada pelo vice presidente Paulo Manuel Avila Messias,

•  Presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo – Dra. Andreia Martins Cardoso da Costa

•  Diretor Regional da Cultura - Dr. Jorge Augusto Paulus Bruno, representado pelo

Eng° Paulo Raimundo.

•  Comandante da BA4 - Coronel Alexandre Paulo Meneses Figueiredo

•  Comandante do RG1 - Coronel Nuno Álvaro Pereira Bastos Rocha

•  Presidentes de Juntas de Freguesia de Santa Cruz - Carlos Armando Ormonde da Costa

•  Órgãos e serviços diversos da Administração Local, das Forças Militares, da Polícia, da GNR, dos Combatentes, da Associação dos Deficientes devidamente representadas.

•  Pessoal civil que serve ou serviu os três Ramos das Forças Armadas

•  Órgãos da comunicação social: Jornais (União, Insular, Praia da Vitória); Radio Lages e Angra; RTP; Pilotos da FA; Fotógrafo.

•  Caros Combatentes

•  Minhas senhoras e senhores

 

Agradeço às entidades promotoras desta Cerimónia a honra que me deram ao convidar-me como orador, embora considere que possivelmente não foi a melhor escolha. Os militares, os que dedicaram a sua vida à Pátria e ao bem público são homens de ação, com experiências muito próprias, que lhes moldam a visão dos acontecimentos de forma nem sempre coincidente com os restantes elementos da comunidade. No entanto é com paixão e honra que compartilho alguns episódios nesta Cerimónia Evocativa da Batalha da Praia da Vitória, e de Homenagem aos Antigos Combatentes Mortos na Guerra do Ultramar.

Os combatentes dedicam a vida ou parte dela à causa nacional, à qual subordinam os seus interesses, e disponibilizam-se para lutar em defesa da pátria, se necessário com o sacrifício da vida. Não é totalmente por acaso que mais de um terço dos meus colegas já faleceu. Os combatentes também se restringem no exercício de alguns direitos e liberdades, e adotam uma conduta conforme a ética militar, de forma a contribuir para o prestígio e valorização moral das Forças Armadas. Apesar dos sacrifícios, às Forças Armada devo tudo e orgulho-me de ser combatente. Quando o caos se instala é nos combatentes, naqueles que construíram o seu carácter e tiveram a coragem para enfrentar os desafios éticos diários, que é encontrada a força para ultrapassar as dificuldades. Só cada combatente conhece as verdadeiras razões porque combate, ou se empenha na construção da paz. Mas há sempre um vínculo invisível que o liga aos outros, ao Estado, vínculo este que não pode ser desligado arbitrariamente. Entretanto ouve-se que o Estado pouco tem feito pelos combatentes, parecendo não aproveitar em pleno a disponibilidade que a Liga dos Combatentes oferece para concretizar possíveis apoios, que esta mesma Liga justifica afirmando: "o mesmo Alguém que nos levou a pegar em armas, leva-nos hoje a pegar nas Forças Morais que nos unem, para nos colocarmos ao lado dos que acreditam nos valores intrínsecos da sociedade portuguesa ". Entretanto as suas vozes não têm sido ouvidas oportunamente por toda a gente, nomeadamente por aqueles que têm o dever de zelar pela comunidade.

 

Os sócios da Liga dos Combatentes, as suas famílias, e aqueles que estão em situação de pobreza e em risco de exclusão social podem beneficiar de instalações e serviços muito diversos, existindo equipas multidisciplinares para as apoiar. Com o objectivo de honrar os mortos e dignificar os vivos a Liga revela-se como uma entidade moderna, perene, abrangente, transversal e estruturante em campos muito diversos. Até que ponto essas acções vão beneficiar todos os combatentes, nomeadamente os Açorianos, é caso para nos interrogarmos? De qualquer forma é essencial que cada um dê a sua contribuição, pelo menos fazendo-se sócio. Atente-se a que:

•  As necessidades dos combatentes vêm de longa data, em especial de todos aqueles que ainda sofrem de traumas da Guerra Colonial;

•  As Forças Armadas têm sido nos últimos anos um exemplo de restruturação e contenção que não tem paralelo em nenhum outro organismo do estado, embora tenham vindo a sofrer uma redução vincada de alguns dos vencimentos dos seus quadros, em comparação com outras entidades do Estado, para além do corte da carreira que alguns amargaram muito antes de ser atingida a idade da reforma,

E registe-se que não se conhecem casos de corrupção, apropriação de riquezas ou escândalos semelhantes aos que se ouve de outros organismos, a não ser um único caso, mas em benefício desse Estado, que paradoxalmente os órgãos de comunicação deram pouco relevo: o do General Eanes, antigo Presidente da República que recusou receber uma soma enorme de dinheiro que um decreto qualquer lhe conferira. As limitações dos combatentes no ativo ao uso da palavra restringem a discussão de aspectos fundamentais aos combatentes, como a perda da capacidade de influenciar a escolha das suas chefias, e a sua redução a uma dimensão própria de estados exíguos, como disse o professor Adriano Moreira. Não obstante os sucessivos governos após o 25 de Abril têm aumentado a tipologia das missões que as Forças Armadas são chamadas a cumprir, tanto no exterior como no interior, fazendo delas o maior sustentáculo de apoio à política externa do Estado Português.

 

Ouçam Nuno Rogeiro: "claro para que fique barato pode qualquer estado decidir desembaraçar-se das suas Forças Armadas. Historicamente pagará pela opção ".

Ou David Martelo: "uma Instituição com a idade da Pátria, esmagadoramente justificada pelos cidadãos, deveria corresponder a uma realidade respeitada, prestigiada, adequadamente estudada, e profundamente acarinhada, E isso parece não suceder. E acrescentou que: "até a imagem que se dá para o exterior parece não ser a melhor possíveF, citando Mouzinho de Albuquerque que afirmou: "se o fardamento não é de tal feitio que lisonjeie o amor-próprio do soldado, o Exército nunca será o que deve ser". Ouça-se ainda António Barreto: "Portugal não trata bem os seus antigos combatentes, sobreviventes, feridos ou mortos", referindo que o "esquecimento" e a "indiferença" são superiores, sobretudo "por omissão do Estado". Barreto reitera as críticas ao povo português que é "parco em respeito pelos seus mortos" esclarecendo que um antigo combatente não pode ser tratado de "colonialista", "fascista" ou "revolucionário", mas simplesmente "soldado português". "Todos os militares, merecem o nosso respeito e homenagem ". E por isso quando o atual Presidente da República no dia 10 de Junho afirmou "recordamos os sacrificios feitos, há meio século, pelos soldados portugueses" novamente brilha a esperança que algum dia o sacrifício dos heróis combatentes possa vir a ser reconhecido em toda a sua plenitude e dignidade.

Na placa à nossa frente consta uma lista de 18 heróis que deste concelho deram a vida na antiga guerra entre Portugal e as antigas Províncias Ultramarinas, guerra que serviu para demonstrar não só que aqueles territórios e povos tinham o mesmo direito que muitos outros à sua independência, como eram importantíssimos para o povo português, o que só hoje parece que se anda a compreender, através da recriação de ligações, relações e língua comum. Olha-se para os combatentes como tivessem sido os colonizadores, os espoliadores ou os culpados pelos acontecimentos. Mas a verdadeira história é outra. Como afirmou o Presidente da Direcção Central da Liga dos Combatentes, General, Joaquim Chito Rodrigues aqui presente: "nos finais do século dezanove e princípios do século vinte a comunidade internacional desenhava os grandes conceitos políticos relativamente a África, e estabelecia que Portugal, ou ocupava os territórios de Angola e Moçambique, ou perdia a soberania que sobre eles exercia havia séculos. Paradoxalmente, cinquenta anos depois, a mesma comunidade internacional defendia outras regras: quem ocupa tem que abandonar. E quem sofreu com estas sinusoidais políticas internacionais? Os portugueses do século XXe os seus soldados". Esta é a verdadeira história.

 

Em 1582, na Vila da Praia, quase trezentos anos antes da Batalha da Praia, o pretendente ao trono, D. António Prior do Crato, foi aclamado rei. A Batalha surge no ano de 1829, durante os conflitos entre os liberais apoiados pelo Rei D. Pedro IV, que defendiam a monarquia liberal ou constitucional, e os absolutistas, apoiados pela rainha D. Carlota e pelo seu filho D. Miguel, que defendiam a monarquia absoluta. Tomando o partido dos liberais, a Vila resiste heroicamente, ao ataque e tentativa de desembarque de uma esquadra de tropas miguelistas com forças muito superiores às existentes em terra, acabando por derrotá-la. Foi esta vitória que leva a que, em 1837, lhe seja outorgado o título "da Vitória". A Batalha foi precedida pelo combate do Pico Celeiro, cerca de um ano antes, a que se seguiram, o Combate da Ladeira da Velha, o Cerco do Porto, as Batalhas da Ponte Ferreira, do Cabo de São Vicente, e várias outras. Durante a minha carreira prestei serviço, uma ou mais vezes, em cerca de 20 localidades diferentes, nas quais se incluem as comissões em Angola, Moçambique e Guiné, com ou sem casa e família às costas. A profissão das armas exige muita dureza e sacrifícios, para além das acções de combate, a ponto de se contar a história, que me foi transmitida pelo meu camarada Fonseca Freitas, que se segue:

 

"O combatente ao colocar-se perante Deus com todos os coturnos a brilhar, pronto para última inspeção, ouviu a voz ":

•  "Um passo a frente, soldado! Foste fiel à Igreja? Destes o outro lado da face ao inimigo? ".

•  "Não! Não senhor! Nós que andamos armados, nem sempre podemos ser amor! Nalguns domingos por estar de serviço, à igreja não fui. Também falei de modo impuro... ou fui violento. Mas nunca guardei um tostão que a mim não pertencesse... E quanto mais uma conta se acumulava, aos trabalhos extras no Quartel me dedicava, em proveito do bem-estar de colegas e subordinados, e consequentemente, da minha família me afastava... Mas às vezes, SENHOR, me perdoa, eu chorei por coisas à toa, e por dores dos outros. Não mereço ficar entre os que já estão em seu meio, que me desprezam, a não ser quando sentem receio... Abreviando a história, Deus deu o veredicto: "o teu corpo serviu com alma e coração... fez-te escudo, armadura, em proveito do próximo... Portanto, anda em paz pelo paraíso... INFERNO já foi a tua missão..."

Os combatentes não podem ser os esquecidos da sociedade. Com a autoridade fragmentada de hoje, o sucesso torna-se mais difícil no cumprimento das missões, que são mais exigentes, reforçando a ideia que já era regra de oiro no tempo da guerra colonial, mas que infelizmente as pessoas desconhecem: os combatentes devem possuir duas varinhas mágicas, uma eivada do espírito guerreiro, para não se deixarem vencer pelas acções violentas, e outra carregada de atitudes e comportamentos pacíficos, humanitários, conducentes ao entendimento dos povos, para ajudar a construir a paz. E isto foi e é difícil, requer muita instrução e treino, armamento e equipamento atualizado, e não só intenções e força de vontade, coisas estas que não faltam aos combatentes. Como recentemente afirmou um líder dum país do mundo ocidental em que a população reconhece com grande pompa e dignidade os serviços prestados à Nação pelos seus militares: "2s graças aos soldados, e não aos sacerdotes, que podemos ter a religião que desejamos". É graças aos soldados, que temos liberdade de imprensa, podemos falar em público, que existe liberdade de ensino e o direito a um julgamento justo, e que podemos votar, e não devido aos jornalistas, poetas, professores, advogados, políticos.

Lutemos pois pelo bem da comunidade e dos seus soldados. Os combatentes merecem isso, bem como todos os Terceirenses que sofreram na carne as rivalidades da política da época da Batalha da Praia, e que possivelmente ainda sofrem por rivalidades semelhantes. Como Praiense, Terceirense, Português e Combatente espero que esta cerimónia seja contributiva para o crescimento e manutenção do orgulho de todos os combatentes, em serem combatentes, os de ontem e os de hoje, e para a construção duma sociedade e dum Portugal melhor, mais justo, solidário, apoiante e reconhecido nomeadamente em relação ao papel desempenhado pelos combatentes nessa construção. E se tem dúvidas sobre o espírito que move os combatentes, ouça um pouco do hino dos fuzileiros, e ficará esclarecido:

"Desfilai ó fuzileiros mortos", e acrescentaria, marinheiros, soldados, pilotos, comandos, forças especiais, polícias,

 

"E juntai-vos ao nosso cantar,

Há mil sonhos ainda a viver

Mil batalhas índ'há por ganhar.

 

Quer na paz quer na guerra, cantemos

O orgulho de quem sabe ser,

Marinheiro e soldado na terra "

 

e acrescentaria, no ar

"Que jurámos querer defender.

 

Como sempre gritemos presente!

Como sempre marchemos a par

Só tem Pátria quem sabe morrer

Só tem Pátria quem sabe lutar "

 

 

 

 

Porto Martins, 11 de Agosto de 2011.

O Orador

Aurélio V. M. Pamplona, Cor Inf Ref

 

 

Palavras do Presidente da Liga Dos Combatentes General Joaquim Chito Rodrigues, nas Comemorações do Aniversário da Batalha da Praia da Vitória nos Açores em 11 De Agosto De 2011

 

Exmo. Senhor Vice-presidente da CM da Praia da Vitória em representação do senhor Presidente da Câmara

Exma. Senhora Presidente da CM de Angra do Heroísmo

Exmo. Senhor General Comandante Operacional dos Açores

Exmo. Senhor comandante da base aérea das Lages

Exmo. Senhor Comandante do Regimento de Guarnição N.º 1

Exmo. Senhor Diretor dos Serviços dos Bens Culturais e de Ação Cultural em representação do Senhor Diretor Regional da Cultura Exmo. Senhor Presidente da Junta de Freguesia de Santa Cruz

Ilustres entidades civis, militares e religiosas

 

Minhas senhoras e meus senhores

Combatentes

Foi ontem. Decorreram apenas 182 anos. No dia em que se comemora um feito de armas nos Açores, de Angra do Heroísmo à Praia da Vitória, assinalamos por outro lado, algo que desejamos se não repita. O uso das armas para a resolução de problemas e desentendimentos internos. No caso concreto, na sequência de ameaças e agressões externas que nos conduziram à dupla situação de quase colónia brasileira e protetorado britânico. Ao pronunciarmos porém o nome das principais cidades da Ilha Terceira encontramos associados a ela, o Heroísmo e a Vitória. Comportamentos humanos de relevo e vitoriosos, que caracterizam e incentivam a gente dos Açores e que foram decisivos na História de Portugal. Para nós, Combatentes, que conhecemos e passámos por momentos de confrontação violenta que exigiram sacrifícios e vidas, com honra partilhamos memórias e partilhamos e assumimos a História, seja ela um repositório de vitórias ou de derrotas e contradições.

Assumida a História e partilhando as memórias reconhecendo o que errado foi feito, é possível encetar ações de desenvolvimento, de progresso e, de paz. Como presidente da Liga dos Combatentes, integradora de 93 núcleos espalhados pelo país e pelo estrangeiro, com dezenas e dezenas de milhares de associados e mais de cinco centenas de dirigentes, todos voluntários, é com muito prazer e honra que aqui os represento e afirmo a nossa permanente postura de honrar aqueles que caíram e lutar pela dignidade daqueles que vivem. E como um dos nossos objetivos estatutários é a promoção da História e dos símbolos nacionais, promovendo a Cultura, foi com redobrado interesse que a Liga dos Combatentes assumiu a responsabilidade do Forte de Santa Catarina, edificado no Séc. XVI, conforme o plano de defesa da ilha, por Tomaz Benedito, e que teve na data de 11 de Agosto de 1829, que hoje comemoramos, importância decisiva no desenrolar dos acontecimentos, constituindo-se pelo seu porte e localização estratégica, na primeira linha defensiva da baía, ao cruzar fogos com o Forte de S. José.

Demos-lhe vida e queremos que continue a ser um lugar de cultura, um lugar de Combatentes, onde os combatentes assinalem os eventos mais significativos e possam conviver. Um agradecimento a todas as entidades civis, em especial aos senhores presidentes das câmaras que apoiam o Núcleo de Angra do Heroísmo/Praia da Vitória e apoiaram esta cerimónia e às mais Altas Entidades militares que aqui representam a Marinha, o Exército e a Força Aérea, nas pessoas do senhor Comandante do Comando Operacional dos Açores, senhor comandante da Base Aérea N.º 4 e comandante do Regimento de Guarnição N.º 1.

O nosso sincero muito obrigado pelo apoio de hoje e de sempre. Quando se evocam os 50 anos do início dos acontecimentos em Angola e igualmente os 50 anos da queda de Goa Damão e Diu, evocamos o esforço da Nação portuguesa e das suas Forças Armadas num conflito que politicamente se deixou arrastar por catorze anos. Evocamo-lo com o sentimento da honra e do dever, mas sobretudo, evocamos esse período, curvando-nos perante os que caíram e continuando a luta pela dignidade dos que ficaram prisioneiros, dos que sofreram a deficiência física ou mental, bem como daqueles que tendo cumprido o seu dever na guerra, a vida futura não lhes sorriu. Como já alguém escreveu, juntaram-se aos que "há séculos participam na aventura coletiva de serem portugueses e de construírem Portugal, colocados num momento dramático das suas vidas, por uma força exterior, que desconhecem, mas que dispõe deles" (1) .

A Liga dos Combatentes não os esqueceu, não os esquece e não os esquecerá. Por isso gritamos com honra o nosso lema: Liga dos Combatentes Valores Permanentes, Liga dos Combatentes em todas as frentes.

•  In Prefácio de Carlos Matos Gomes, no Livro Coragem e Amizade

 

Praia da Vitória, 11 de Agosto de 2011

 

 

General Joaquim Chito Rodrigues

Presidente da Liga dos Combatentes