11.08.2012 - Evocação da Batalha da Praia da Vitória e Homenagem aos Antigos Combatentes Mortos na Guerra do Ultramar - O Núcleo da Liga dos Combatentes de Angra do Heroísmo/Praia da Vitória, realizou no dia 11 de Agosto de 2012, no dia em que se assinalam os 183 anos da Batalha da Praia da Victória, na Ilha Terceira, cidade de Praia da Vitória, no Largo da Batalha, a Cerimónia evocativa da Batalha da Praia da Vitória e Homenagem aos Antigos Combatentes mortos na Guerra do Ultramar. Cerimónia esta que constou no programa das Festas da Praia 2012, que decorreu de 3 a 11 de Agosto na cidade da Praia da Vitória. Este acto solene contou com a presença do Exmo Vice-Presidente da Camara Municipal da Praia da Vitória, Paulo Manuel Ávila Messias, em representação do Presidente da Camara, Roberto Lúcio Silva Pereira Monteiro; do Chefe do Estado Maior do Comando da Zona Aérea dos Açores, Coronel Piloto, Eduardo Jorge Pontes de Albuquerque Faria, em representação do Comandante Operacional dos Açores, Vice-Almirante Augusto Mourão Ezequiel; do Comandante do Regimento de Guarnição nº 1, Coronel de Infantaria, António Alberto dos Santos Araújo; do Presidente do Núcleo da Liga dos Combatentes de Angra do Heroísmo/Praia da Vitória, Tenente Coronel Reserva, José Pereira Rodrigues e de diversas entidades civis, militares e ex-combatentes da Guerra do Ultramar e familiares, como também com a participação espontânea de povo anónimo que se quis associar directamente ao acontecimento.

Para a realização da referida cerimónia contou-se com a importante colaboração do Comando Operacional dos Açores (COA), e dos Comandos da Zona Maritima dos dos Açores (CZMARA), do Comando da Zona Militar dos Açores (CZMILA), do Comando da Zona Aérea dos Açores (CZAERA) e da Câmara Municipal da Praia da Vitória. Pretendeu-se não só recordar o combate travado a 11 de Agosto de 1829 na baía da Vila da Praia da Vitória, entre as forças absolutistas de D. Miguel e as liberais, defensoras de D. Maria II, mas também lembrar com profundo respeito, todos aqueles que se bateram de armas na mão por uma causa, que combateram em nome de Portugal. Assim, desta forma honrámos a memória daqueles que cairam em teatros de guerra e dignificámos os combatentes vivos.

Pelo Nucleo da Liga dos Combatentes em Angra do Heroísmo, foi proferida uma intervenção alusiva à cerimónia pelo ilustre convidado, Sócio Combatente, Doutor Luis Filipe Cota Moniz. O Excelentíssimo Senhor Vice-Presidente da Camara Municipal da Praia da Vitória, Paulo Manuel Ávila Messias proferiu uma alocução alusiva à cerimónia. Após a cerimónia foi realizado um almoço convívio, na Academia de Juventude da Ilha Terceira. Na sequência desta cerimónia o Comando da Zona Maritima dos Açores, manteve atracada no cais militar do Porto da Praia da Vitória a Corveta Afonso Cerqueira, com abertura a visitas.

 

 

DISCURSO DO DR. COTA MONIZ

Preâmbulo

A Liga dos Combatentes, através do sr Tenente Coronel José Rodrigues, que preside à Delegação da Ilha Terceira, convocou o alferes miliciano 02086467, Luiz Filipe Cota Moniz, para esta missão e, além do mais, não podia deixar os companheiros de armas. Nunca o fiz, e nunca o farei. Na vida, como na mata africana, só juntos podemos sobreviver, embora cada qual vá caindo sozinho nesta picada minada que é a existência humana. E, como salientou o nosso Comandante ao dar a guia de marcha, é Agosto, tempo agoniado para actos solenes, e as surtidas têm de ser rápidas e eficazes para resultarem. Abraçando todos, mas lembrando os Comandos de Montepuez, em Moçambique, terra onde servi no tempo dos generais Kaulza de Arriaga, Diogo Neto, Terceirense Manuel Menezes : Mama Sumae (Prontos para o Sacrifício)!

 

No Largo da Batalha

Neste local, designado pelo Povo como Poço da Areia, oficialmente Largo da Batalha, onde desemboca o Passo do Milhafre, hoje avenida, situa-se a singela placa comemorativa que lembra os nomes daqueles que deram a sua vida na guerra de África, em combate ou por acidente, entre 1961 e 1974, à semelhança do que sucede, felizmente, por muitas freguesias da Ilha Terceira, que hoje ostentam com saudade, mas orgulho e honra, o nome dos seus filhos. Porque já chorámos demais os mortos por os vivos os não merecerem!...

Neste dia 11 de Agosto, há 183 anos atrás, a força naval do irmão Miguel defrontou a infantaria e artilharia do irmão Pedro, espalhadas pelos sete fortes que defendiam a baía da Praia. Açoreanos envolvidos eram muito poucos, e por detrás dos navios, dos canhões, da metralha e dos mercenários, estavam os interesses e o dinheiro de duas grandes potências de então, a França e a Grã-Bretanha, claro que aproveitando a briga e ambições dos dois irmãos. Dado o número de barcos envolvidos – vinte e dois – e o respectivo poder de fogo e equipagens, poderá suceder que a esquadra não tivesse objectivo definido, e tenha feito mera tentativa com vista a testar a defesa terrestre. Os reduzidos danos humanos e materiais resultantes assim o indiciam. Claro que se os tivessem deixado teriam desembarcado e tomado posse. Tal não sucedeu, e a história seguiu o seu curso, rumo às praias do Mindelo, ao Porto e ao Reino no seu todo. A história de todos os Povos está recheada de episódios cuja carga patriótica, lendária ou ideológica, se sobrepõe à realidade dos factos. Valem pelo seu simbolismo mais que pela duvidosa realidade das coisas. Por exemplo, a batalha de Ourique, a que se deverão as quinas no estandarte do reino, é hoje em dia posta em causa por alguns.

E teremos sempre de ter cuidado na tradução simples e maniqueísta da história, em que uns são os bons e os outros os maus. Sobretudo não podemos julgar o sucedido há perto de 200 anos pelos padrões e valores hoje vigentes. Assim, é uma leitura ideológica dizer que os miguelistas e absolutistas eram os maus, e os liberais – designação enganosa que nada tem a ver com a mesma expressão dos nossos dias – eram os bons, os “democratas”… Por Deus, os Condes, Duques, Chefes e Generais liberais, cuja estatuária imponente – aliás magnífica – enche Lisboa e o País, eram tão gananciosos como os do outro lado, e na Ilha Terceira o que sucedeu é o que sempre acontece quando há convulsões socio-políticas: apoderaram-se de todos os bens que puderam pertencentes aos miguelistas. E das lutas intestinas ficou a memória sangrenta nos Lugares das Guerrilhas e das Casas Queimadas, na freguesia da Terra-Chã do concelho vizinho de Angra do Heroísmo. Seja como for, refrega, escaramuça ou batalha, a história ficou lavrada, e honra e glória aos que se bateram de parte a parte, em terra e no mar, saindo vencedores os designados liberais. Dos vencidos não reza a história, e a Praia ficou da Vitória.

 

A Vitória da Praia

Para o bem ou para o mal, o dia da Praia não é o da Restauração da Soberania Nacional, proclamada na Praia por Francisco Ornelas da Câmara, data passada mas consensual; nem a data de elevação a cidade, recente mas virada ao futuro; ao presente ficou a data de 11 de Agosto como o dia do concelho. Portanto importa ressalvar o significado, o impulso, o anseio. A Praia, concelho oriental da Ilha Terceira de Nosso Senhor Jesus Cristo, tem de sentir o esforço e sacrifício dos seus antepassados, conhecidos ou anónimos, para, em tempo de paz que esperamos perdure, ultrapasse a batalha do desenvolvimento, do emprego, da riqueza colectiva, para bem de todos, sobretudo dos mais carenciados. Por paradoxal que possa parecer, as Forças Armadas são garante da Paz, seja em teatro de guerra seja recolhidas aos quarteis. Daí que a nossa presença neste Largo da Batalha, e junto ao monumento aos Combatentes, tem também o sentido de cumprimentar todos os praienses em tempo de festa, e desejar que os nossos filhos e netos tenham um concelho progressivo, que lhes dê oportunidades para afirmarem as suas personalidades como Ilhéus e Cidadãos Livres desta Terra abençoada pelo Espírito Santo.

 

África, naturalmente

Recentemente, na celebração da freguesia da Sé de Angra, tive o prazer de conhecer o actual Comandante – correcto seria dizer Governador -- do “Castelo”, sr Coronel Araújo, que constatava que dos Combatentes da I Guerra Mundial já não existirão sobreviventes, e que da Guerra de África, e por força da Lei da Vida, dentro dum quarto de século nenhum por cá estará. Felizmente que o decurso do tempo vai esbatendo os contornos políticos e ideológicos, e trazendo à tona dados mais objectivos que permitam um juízo mais imparcial sobre o feito notável – abstraindo de razões, fundamentos, ou justiça da razão de ser – que foi um pequeno país manter uma guerra além-mar, com deslocação de milhares de pessoas, equipamento e material, e apenas ser vencido na rectaguarda, nos terreiros do paço de Lisboa, e não nas zonas de guerra bem municiadas por tudo o que era regime marxista neste mundo, e até pelos habituais pacifistas, esquerdistas, anti-caça, anti-toiradas, e apoiantes de paradas gay e casamentos monossexuais. Duma vez por todas temos de acabar com o falso conceito de que os chamados anti-fascistas que fugiram para os Nortes de África ou da Europa são os heróis, e os vilões os que, como nós, ficámos de G3 nas mãos no meio do mato.

Entre outras obras válidas, fugindo à ficção romanceada ou a monografias e aos livros de saudade, cito a obra do Tenente Coronel Piloto-Aviador Brandão Ferreira “Em nome da Pátria”, das Publicações D. Quixote, e as “Guerras e Campanhas Militares da História de Portugal“ (Angola, Moçambique, Guiné), sob coordenação da Profª Manuela Mendonça da Academia Portuguesa de História, edição da Quidnovi. África faz parte da vida da minha geração, quer queiramos quer não, e da história militar portuguesa do século XX. Os combatentes enumerados no monumento do Largo da Batalha tombaram no Continente Africano. Hoje somos sexagenários e septuagenários, pelo menos, pais de família e avós; no activo ainda ou aposentados; de saúde ou alquebrados pela doença; lavradores e comerciantes; militares e civis; trabalhadores por conta própria ou doutrem; burgueses e proletários; uns com sorte na vida, outros sem saberem o que isso é. Deles todos somos parte, e recebemos o exemplo de quem, no perigo e na dor, se dá as mãos na guerra como em tempo de paz. Não somos os únicos, nem originais. Não fomos os melhores. Somos gente comum, e estamos aqui. Sobretudo, e até ao último, não esquecemos nem esqueceremos. Cumprimos o nosso dever nos quarteis ou nas matas, bem longe dos jogos da geo-política e dos interesses geo-estratégicos da economia, e das ideologias vencedoras ou vencidas em cada período histórico.

Os nossos filhos e netos, seja do mais ilustre e conhecido, ou do mais modesto e ignorado, podem olhar-nos olhos nos olhos, e orgulharem-se pela forma como cumprimos a missão que nos foi confiada. Existem milhares de angolanos, moçambicanos, guineenses e timorenses que estiveram dum e doutro lado da barricada, por nós ou contra nós, e que ainda hoje têm de abrir caminho ao mais elementar respeito pelas liberdades pessoais e colectivas, a troco da própria vida e da sua fazenda. Muitos e muitos foram sacrificados pelo poder da força, deportados com a camisa que vestiam; presos sem culpa formada; esquecidos e desaparecidos em prisões e campos que nem de concentração têm nome; espoliados de tudo; separados das famílias; torturados e mortos, alguns apenas por haverem servido no exército português. É difícil para os nosso filhos, para as gerações da actualidade, simples cidadãos ou governantes, compreender e sentir o risco e emoção vividos em África nos anos 60 e 70 do século passado. Nesta era do computador, transportados em bons carros e jeeps pelo asfalto, com casas quase todas confortáveis, equipadas com tudo o necessário, é difícil ver nos séniores de hoje os homens de então, de quépi, camuflado e G3 nas mãos, com o sangue quente a latejar, atentos à picada e ao mato traiçoeiro, aguentando o estampido súbito da emboscada, de rojo pelo chão procurando abrigo, disparando às cegas, praguejando na raiva de quem quer voltar, gritando pelo companheiro esbagaçado pela mina, e rezando à Senhora dos Milagres da Serreta para que nos trouxesse vivos e sãos.

África que foi e é, de muitas formas, de muito sangue e dor, lusíada e nossa, e que não merecia as dezenas de milhares de refugiados, eufemisticamente chamados retornados, de todas as raças, pretos, indianos, brancos, mestiços, uma das maiores vergonhas, se não a maior, da história portuguesa. A chamada descolonização não sangrenta foi de facto cruenta, bastando pensar nos conflitos MPLA-UNITA-Cabindas, ou Frelimo-Renamo, e foi cobarde, porque abandonámos pessoas, bens e interesses de nacionais que de um dia para o outro tiveram de fugir de mãos vazias para salvar a vida. Ah, África do Sol esbraseante, a queimar a pele mesmo por baixo da farda de campanha; das machambas a perder de vista; dos rios grandes como um Ilhéu nunca vira; das trovoadas relampejantes que pareciam holofotes gigantescos, não fosse o ribombar do trovão; da chuva que se via no horizonte e, em minutos, caía sobre a gente como cascata; também dos batuques que eram de alegria e loucura, mas também de temor na noite densa; e das capulanas lindas, lindas de morrer na pele escura e de bronze da mulher africana. É por todos eles, e para eles, vencedores e vencidos, combatentes e não combatentes, que o Brazão de Armas dos Açores reproduz a divisa do velho “Castelo”, que o Capitão Ciprião de Figueiredo, há mais de quatrocentos anos, gravou em letras que nenhum poder jamais poderá apagar:

Antes morrer livres que em paz sujeitos!

Cota Moniz