95º ANIVERSÁRIO DO DIA DO ARMISTÍCIO, 90º ANIVERSÁRIO DA LIGA DOS COMBATENTES E 39º ANIVERSÁRIO DO FIM DA GUERRA DO ULTRAMAR
Professor Doutor António José Telo
09.11.2013

“Só merece verdadeiramente a liberdade quem está disposto a lutar por ela”.

A frase pertence a Churchill e foi dita a propósito dos combatentes da Batalha de Inglaterra, quando o Reino Unido estava sozinho contra uma Europa dominada pela Alemanha. É mais conhecida uma outra apreciação, que se aplica igualmente ao que Churchill classificou como o melhor momento da Commonwealth: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”.

Estas duas citações traduzem muito bem a minha maneira de olhar para os combatentes, resumida em poucas palavras por esse orador genial que foi Churchill. Os combatentes são efectivamente os poucos a quem todos tanto devem, os que estiveram dispostos a lutar pelos valores colectivos, pelos objectivos assumidos num determinado momento por essa entidade, quase milenar, chamada Portugal. É por isso que temos para com eles uma divida de gratidão que não pode ser paga. Eles são os nossos melhores, os que lutaram e tudo sacrificaram pelos que não podiam ou não queriam lutar. Em certo sentido, como Churchill referia, eles são os que verdadeiramente merecem os direitos e valores que consideramos nossos, a começar na liberdade.

Era, aliás, esse o conceito das primeiras democracias, desde a Grécia clássica, à Inglaterra de Cromwell ou aos EUA da guerra da independência: quem tinha direito ao voto eram os combatentes, pois eram eles que garantiam esse direito de armas na mão.
Esta é uma primeira aproximação a um tema complexo, válida, mas incompleta. Como é normal, a realidade encarrega-se de complicar as coisas aparentemente simples, não por maldade, mas pelo simples motivo que a realidade é complexa. Permitam-me, assim, colocar uma pergunta: e que acontece quando os combatentes, ou uma parte substancial deles, não concorda com a guerra em que estão envolvidos?
Não se trata de uma pergunta meramente teórica. Se a coloco é porque ela tem muito a ver com uma data que hoje celebramos: o fim da Grande Guerra.
Nessa altura, o Governo Republicano, dominado pelo Partido Democrático, forçou a beligerância e conseguiu obrigar os Aliados a aceitar a participação de uma importante força expedicionária portuguesa no mais intenso teatro de operações do maior conflito da humanidade: a frente francesa na Flandres. Uma parte substancial da Nação não concordava com esta política, achava que ela pretendia defender, não interesses nacionais, mas sim partidários e que iria acabar em desastre, pois não correspondia aos valores, às tradições e à estratégia normal de Portugal.

A Nação dividiu-se, o que ficou bem patente em quatro anos de intensas lutas internas, com duas revoluções vitoriosas (em 1915 e 1917), uma guerra civil aberta (1919) e um sem número de pronunciamentos, golpes e contra-golpes, num ambiente de guerra civil larvar e intermitente, que se transformava em luta armada ao mais pequeno pretexto.
Sendo as Forças Armadas o espelho da Nação, elas estavam também e naturalmente divididas, uma afirmação especialmente verdadeira em relação ao seu corpo de oficiais, na maioria contrário à política guerrista por a considerar anti-nacional.
Criaram-se dois partidos na sociedade portuguesa: os Guerristas, que concordavam com a política seguida e os Anti-Guerristas, que achavam que Portugal tinha de cumprir as suas obrigações e defender o seu território, mas isso não implicava forçar a beligerância ou enviar forças para França, algo que só se entendia como forma de reforçar um regime fraco e um partido abalado no poder.

Todos os testemunhos são unânimes em realçar que esta clivagem existia e era muito forte. O próprio Norton de Matos, Ministro da Guerra e uma das cabeças dos Guerristas, ordenou que as tropas a enviar para França não fossem submetidas a um exame médico em Portugal, o que significava que muitos incapazes para o serviço militar seguiam para a frente de combate. Qual a razão desta bizarra decisão? Um documento oficial do Ministério explica o pensamento dominante:

“No estado em que se encontram ainda grande parte das chamadas classes cultas do País relativamente à ida para a guerra, eu posso afirmar a V. Exª que aquelas Juntas Médicas livrariam muita gente absolutamente capaz para o serviço militar – talvez não exagere dizendo que os contingentes se me reduziriam de 50%”.

O Ministério da Guerra estava a pensar nos médicos e enfermeiros quando acusava as “classes cultas” de estarem contra a guerra, mas parecia esquecer que os oficiais eram igualmente “classes cultas”, com uma formação muito acima da média nacional de então.

João Chagas, um outro destacado guerrista, confessava no seu Diário, a surpresa que teve quando verificou, com a visita do Presidente da República Bernardino Machado ao sector português da frente, como muitos dos oficiais não hesitavam em mostrar a sua aversão pelos responsáveis do que consideravam ser uma política de desastre nacional.

Os oficiais ingleses que contactavam com os portugueses eram muito duros nas apreciações feitas nos documentos internos – os únicos que contam, pois as afirmações públicas não passavam de propaganda. Os documentos ingleses realçavam o valor e coragem dos portugueses, mas sabiam que a capacidade operacional era condicionada pelos problemas da profunda divisão e do ambiente político. Assim, para dar só um exemplo, um dos primeiros relatórios do Corpo de Exércitos britânico onde se inseria o CEP, afirmava:

“As condições políticas de Portugal são demasiado instáveis para produzir uma boa força combatente e a maioria dos oficiais passa mais tempo a pensar em política do que em derrotar o inimigo. (…) As tropas falam frequentemente em revolução e os seus oficiais dão o exemplo. (…) Há bons oficiais, mas estão obcecados pelos fins políticos, sabendo que a sua promoção depende mais dos políticos em Lisboa do que dos seus superiores aqui”.
A literatura de memórias, muito abundante na guerra, é igualmente um excelente testemunho deste espírito de clivagem profunda. Américo Olavo, por exemplo, afirma:

“Oficiais há aqui em França que mesmo diante dos seus soldados dizem que foram mandados para o matadouro, que vieram para a guerra exclusivamente para servir intenções do Sr. Afonso Costa, baixezas do Sr. Bernardino Machado ou negócios do Sr. Norton de Matos. Discussões nas messes abordam muitas vezes o assunto político, o ódio aos políticos”.

Jaime Cortesão, um médico e um dos mais notáveis nomes da cultura do seu tempo, guerrista convicto que se ofereceu como voluntário para o CEP, refere como os soldados, “sem esperança nem apoio moral” se sentiam “abandonados” e davam parte de doentes, enquanto os médicos, “condoídos”, passavam dezenas de certificados de baixas, provocando a estranheza das chefias.
A profunda divisão nacional passou para a literatura e faz com que, por exemplo, Fernando Pessoa, o maior poeta português contemporâneo, escrevesse estas linhas:

Venderam Portugal
Para ter dinheiro em notas
Meteram-nos na guerra a mal
Só para ter-mos derrotas. (…)

Meu coração está a estalar,
Minha alma diz que não.
Vejo o Encoberto chegar
No meio da Cerração.

Todos os testemunhos são unânimes, e apontam para a grande divisão do País, para as clivagens agravadas num momento em que a união era mais necessária do que nunca. As acusações são muito fortes de lado a lado. Os guerristas acusam os outros de “germanófilos”que apunhalam a Nação e minam o esforço de guerra; os anti-guerristas não hesitam em falar da traição dos políticos, que vendem a Pátria no altar dos interesses partidários. O que não levanta dúvidas é a realidade de uma profunda divisão.

Perante este panorama e a guerra civil intermitente a que deu origem, compreende-se a grande dificuldade dos combatentes no pós-guerra e a luta que travaram para defender a sua memória. É nesse combate que nasce a Liga dos Combatentes, de que hoje também celebramos o aniversário.

Depois da guerra os governos republicanos, restabelecidos no poder com a queda do Sidonismo, promoveram rapidamente a propaganda e exaltação do esforço de guerra. Para eles tratava-se essencialmente de justificar a política de forçar a beligerância e enviar forças para a Flandres, de defender a ideia de que essa política era nacional e, logo, os que lutaram contra ela eram “traidores” e germanófilos. Muitas vozes se ergueram contra esta perspectiva do partido no poder e, na primeira linha da oposição, estavam os combatentes, ainda desorganizados, mas sempre activos. São os combatentes, principalmente os que passaram pela Flandres, que defendem uma outra perspectiva sobre a memória da guerra.

O que dizem é simples: independentemente da política, o esforço e o sacrifício feito foi nacional, pelo que a sua evocação e a sua memória nunca podem servir para defender políticas particulares deste ou daquele partido, sejam elas justificadas ou não. A evocação da guerra, só pode ser feita numa base nacional, a partir de valores consensuais, como forma de promover a unidade nacional e fazer justiça aos combatentes.

Durante vários anos, entre 1919 e 1923, a luta foi acesa e frontal na imprensa e na opinião pública, prolongando o que tinham sido as clivagens do conflito. Os governos republicanos continuavam a insistir em comemorações que deviam servir para justificar as suas políticas e recusavam aos combatentes o direito de se organizarem de forma autónoma. Em última instância o que decidiu esta luta renhida foi o exemplo da França e de outras Nações Aliadas, onde os combatentes se organizaram em Ligas próprias logo a seguir à guerra e trataram a memória do conflito numa base nacional e não partidária.

Em 1921 os governos republicanos cedem parcialmente, em larga medida devido à acção do então Presidente da República, António José de Almeida. Este tinha sido um crítico das políticas guerristas, principalmente desde que provocou a queda do governo chamado da “União Sagrada”, que não era nem de união nem sagrado. Assim sendo, António José de Almeida não aceita que o partido no poder se apodere da memória da guerra, que é nacional, e pugna para colocar a sua evocação numa base alargada e de consenso.

A acção de conciliação do Presidente da República é facilitada pela divulgação do conceito do “Soldado Desconhecido”, que nasceu a partir da França: o herói que, no seu anonimato, bem simbolizava a violência do embate e o esforço nacional imenso que ele representou, o sacrifício de uma Nação, que só se podia justificar com base em valores colectivos.

Portugal foi um caso original, também neste campo, pois adoptou não um, mas dois soldados desconhecidos: um vindo da Flandres e outro dos teatros africanos. Era uma forma de simbolizar as diferenças de entendimentos e visões sobre o empenhamento nesses dois teatros e as suas razões. Simplesmente, a escolha simultânea dos dois, a sua junção numa cerimónia conjunta, simbolizava igualmente o novo espírito de unidade nacional à volta da memória da guerra. Era uma primeira e importante vitória dos combatentes.

António José de Almeida realça isso mesmo no discurso que pronuncia a 7 de Abril de 1921, consagrando o “soldado desconhecido”. Nele afirma que as festas, “feitas pelo Povo, pelo Parlamento e pelo Governo, mostram, em todos os números do seu programa, um único intuito: fortalecer a unidade nacional, pondo em evidência a significação do presente, realçando e honrando a tradição e preparando as lições do futuro” – eis uma frase que podia servir de bandeira a qualquer evocação da Grande Guerra.

É este espírito de conciliação e de procura da unidade defendido pelo então Presidente da República, que obriga os governos do Partido Democrático a aceitar a formação da Liga dos Combatentes, coincidindo com a consagração do “Soldado Desconhecido”. A Liga surge associada ao “Soldado Desconhecido”, embora dois anos depois, numa altura de grande clivagem nacional, quando vários movimentos violentos estão prestes a estalar mais uma vez em Lisboa. A Liga, porém, coloca-se numa dimensão nacional, razão porque afirma nos seus primeiros estatutos que é “expressamente vedado a qualquer associado manifestar, dentro da mesma, o seu credo político ou religioso”.

As razões que levavam a Liga a tomar esta posição eram explicadas nos primeiros relatórios da sua direcção. Tratava-se de colocar tudo que dissesse respeito à evocação da guerra e aos combatentes num sólido terreno nacional, de modo a contrariar o que chamavam o “divórcio entre os homens que fizeram a guerra e aquela parte da Nação que os vira partir sem entusiasmo, que os recebera, no regresso, quase com desdém e que os lastimava em vez de os admirar”. Neste campo acção da Liga foi bem sucedida e, passados alguns anos, já não era este o espírito vigente em relação aos combatentes da Grande Guerra.

A Liga na sua formação, dava uma lição à Nação, apoiada pelo Presidente da República e por todos os que queriam promover uma maior unidade nacional. A lição era simples: os combatentes eram o que de melhor Portugal tinha e mereciam todo o carinho e apoio da Nação que defenderam com o seu esforço e sacrifício, com grande valor, coragem e abnegação, independentemente da opinião que cada um pudesse ter sobre as razões e a política de uma determinada guerra ou conflito.

Foi uma lição que vingou e lançou raízes, colocando futuramente toda a evocação dessa e de outras guerras e o apoio aos seus combatentes, numa perspectiva nacional e não partidária. Foi uma lição que outros estados aprenderam igualmente com muitas dificuldades, sempre que viveram os momentos traumáticos do fim de um conflito que dividiu a Nação, como aconteceu com os EUA depois do Vietname. Todos entenderam com o tempo a lição da Liga: os combatentes têm sempre de ser apoiados antes, durante e depois dos conflitos, pois eles são os nossos melhores, os que se sacrificam pelos valores nacionais.

É esta a lição intemporal dos combatentes, uma lição de coragem, valor, abnegação e sacrifício, escrita com sangue no campo da honra, que fez com que Portugal tenha para com eles uma dívida tão grande que não tem preço, nem pode ser paga.